Sentado, olhando em seus olhos passou a
escutar o que o silêncio tinha para lhe dizer, palavras ocas e frias romperam-lhe
os olhos, sentia suas entranhas e cada osso sendo triturado pelo vazio que
estava lhe consumindo; em um ato de desespero passou as mãos na cabeça e
começou a puxar os cabelos tentando de alguma forma arrancar-se de si mesmo e se
livrar daquele manto negro que o cobre da cabeça aos pés o sufocando quando
todos vão embora.
Levantou
impaciente, ora socando e chutando o ar ora rasgando-se num processo de
purificação do “eu”, pois o vazio já estava tão grande que não mais cabia
naquela prisão, tinha que se extrair, estava sendo esmagado por dentro; começou a
gritar, gritou o mais alto que pôde, alto o suficiente para que sua alma o ouvisse,
mas não adiantou, já tinha se tornado o eco do nada que o habitava; ele tentou,
mas não poderia ser aquele que iria lhe puxar pela mão para fora daquele
abismo, alguém tinha que fazer por ele, mas todos sempre iam embora ao fim da
noite, exceto o vazio.
Exausto, já quase cedendo aos desejos da
solidão, ligou a tv e o rádio o mais alto que pôde, mas nenhum barulho
conseguia quebrar o silêncio ali instaurado, exceto pelo barulho que uma
lembrança boa causava, lembrança de um sorriso bobo dividido com alguém que há
muito tempo não mais tivera, de um abraço que há muito não sentia, de uma
conversa que há muito não tinha sem ser traído, de um amor que há muito não
sentia.
Vencido pelo cansaço do corpo
começou a adormecer e a dor parecia se esvair, só parecia, pois no dia seguinte
sendo a primeira coisa que lhe vinha à cabeça como a lembrança de um beijo bom,
de um sorriso da pessoa amada, como os últimos olhares trocados na noite
passada, ela estaria lá ao seu lado como a única companheira fiel que tivera
nos últimos tempos.