sábado, 20 de dezembro de 2014

O que fica quando todos vão embora

  

       Sentado, olhando em seus olhos passou a escutar o que o silêncio tinha para lhe dizer, palavras ocas e frias romperam-lhe os olhos, sentia suas entranhas e cada osso sendo triturado pelo vazio que estava lhe consumindo; em um ato de desespero passou as mãos na cabeça e começou a puxar os cabelos tentando de alguma forma arrancar-se de si mesmo e se livrar daquele manto negro que o cobre da cabeça aos pés o sufocando quando todos vão embora.
  Levantou impaciente, ora socando e chutando o ar ora rasgando-se num processo de purificação do “eu”, pois o vazio já estava tão grande que não mais cabia naquela prisão, tinha que se extrair, estava sendo esmagado por dentro; começou a gritar, gritou o mais alto que pôde, alto o suficiente para que sua alma o ouvisse, mas não adiantou, já tinha se tornado o eco do nada que o habitava; ele tentou, mas não poderia ser aquele que iria lhe puxar pela mão para fora daquele abismo, alguém tinha que fazer por ele, mas todos sempre iam embora ao fim da noite, exceto o vazio.
  Exausto, já quase cedendo aos desejos da solidão, ligou a tv e o rádio o mais alto que pôde, mas nenhum barulho conseguia quebrar o silêncio ali instaurado, exceto pelo barulho que uma lembrança boa causava, lembrança de um sorriso bobo dividido com alguém que há muito tempo não mais tivera, de um abraço que há muito não sentia, de uma conversa que há muito não tinha sem ser traído, de um amor que há muito não sentia.

 Vencido pelo cansaço do corpo começou a adormecer e a dor parecia se esvair, só parecia, pois no dia seguinte sendo a primeira coisa que lhe vinha à cabeça como a lembrança de um beijo bom, de um sorriso da pessoa amada, como os últimos olhares trocados na noite passada, ela estaria lá ao seu lado como a única companheira fiel que tivera nos últimos tempos. 

sábado, 6 de dezembro de 2014

(...) Mas ele era tão jovem.

                          
Com a janela do quarto fechada, fazia daquele espaço o reflexo do seu “eu”; na parede duas prateleira, uma em cima da outra, com todos os livros que ele amava, decorava com vidas encapadas de uma extremidade a outra o quarto; no chão se via folhas amassadas, rascunhos de vida perto da escrivaninha onde ele estava sentado escrevendo-se.

       -Antes de tudo queria me desculpar por quebrar a ilusão dos seus olhos com tal cena. Não se perguntem O porquê, já não vale mais apena, tampouco sejam egoístas ao condenarem meu ato, digo-lhes que não o fiz por vocês, embora foram todos vocês que me mataram antes aos poucos, agora isso já não é morte, mas a consumação do que vinha acontecendo e a libertação de uma alma que penava de dor, sendo assim, fiz por mim, percebi, tarde demais, que eu também deveria ser um pouco egoísta às vezes, a final as coisas sempre foram assim, vocês só erraram na dose de si próprio.
   Saibam que não levo raiva de nenhum de vocês, amei a todos, ofereci tudo que podia, e talvez aqui tenha sido meu erro, pois ofereci até o que era meu, só meu; achei que oferecendo tudo que tinha iriam me retribuir talvez não a altura, mas só um pouco do que vocês possuíam, mas quase não me deram nada, fui dando tudo que eu podia e o que não podia também, e acebei vazio.
  Quero que sigam suas vidas como se eu não tivesse existido, acredito que não vai ser tão difícil; tentem não levar mais alguém a ter que tomar essa decisão que estou tomando.
   Adeus, sentirei saudades, apesar de tudo, de vocês.


  Fez duas pilhas, com quase um metro de altura, no chão com os livros que mais gostava, antes de subir em cima delas deixou a carta dentro do seu melhor livro em cima da escrivaninha para que fosse a segunda coisa que pudessem ver ao entrar no quarto, subiu em cima das pilhas e à medida que pegou a corda amarrada no teto falou colocando-a em seu pescoço:

-Tu que és agora inimiga da minha vida, serás, no entanto, quem irá salvá-la dando-me o abraço que nunca me deram.


  Quando abriram a porta do quarto gritos de desespero podiam ser escutados.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Por que tiveram que ir?

  

Não tinha mais escolhas, tinha que voltar para casa, gastou todo o dinheiro do maldito seguro de vida; nesses anos de fuga viveu em lugares em que o silêncio jamais se apresentava, mas agora não tinha mais jeito, não podia continuar fugindo; na viagem de volta pegou os caminhos mais longos, mas todos eles o levavam de volta ao que queria esquecer.
  Quando chegou a casa ao abrir o portão foi recebido pela angústia que lhe deu as boas-vindas, pega a chaves da porta e ao abri-la ver sentada no sofá, lendo um livro, sua esposa, a imagem mais linda diria ele, ela lhe deu aquele sorriso, não havia nada mais lindo nesse ou em outro mundo:
-Boa noite, amor, senta aqui um pouquinho comigo.
  Dirigindo-se ao sofá viu os dois filhos correndo pela sala, ora pulavam na cama ora queriam assistir à televisão, era uma grande gritaria, mas todo aquele barulho era o que o deixava feliz.
   Ficaria mais feliz que o normal naquele momento, no entanto, se tudo aquilo não fosse apenas lembranças; sentado no sofá com o olhar fixo parecia estar escutando alguém falar; olhou ao redor e viu o vazio que enchia aquele lugar, sentiu-se sufocado; sentiu um vento frio entrar pela janela, era a solidão que veio lhe dar, também, um abraço de boas-vindas, o abraçou tão forte que lhe esmagou os pulmões.
   A solidão o beijou aos lábios sugando tudo que de vida ainda tinha dentro dele, em compensação o encheu de um vazio desesperador, em resposta tudo que ele conseguia ser e, principalmente, fazer era transformar-se em rios de si mesmo.
  Ela tomando conta do corpo dele o ergueu, tentou leva-lo até a janela, mas seus pés recusavam-se em segui-la, mas ela era, naquele momento, mais forte que ele, e por um instante sentiu a falta do chão sob os pés, segundo depois o chão era seu próprio corpo.

  Agora será ele também lembrança, caso haja alguém para lembrá-lo. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Talvez, se olhares além de si próprio, não seja tarde demais.



Acordou às seis da manhã com gritos que vinham da cozinha, já tinha se tornado rotina; escutava porque não havia outro jeito, pensava em sair dali, mas para onde, com qual intenção? Se a qualquer lugar que fosse nada conseguia preencher aquele vazio, já estava cheia dele e a única forma de expulsá-lo, só em parte, era aos poucos o transformando em rios que brotavam dos seus olhos. 
     Às vezes ficava sentada por horas em um banco de praça, diria estar sozinha se aquela angústia não lhe acompanhasse sempre; olhava o céu e se sentia parte dele, por um instante esquecia-se de tudo que estava acontecendo, mas não demorava muito para que as lembranças voltassem; sentia falta da mãe que morreu quando ainda era criança, dos amigos que nunca tivera, do amor que jurava ser para sempre, sentia falta de sentir àquele corpo que se via presa como sendo algo seu, não algo que tinha que carregar.
    Cada lembrança trazia consigo um pouquinho de vazio e que depois dava fruto a angústia que lhe enchia deixando-a cada vez mais o eco do que costumava ser. Não sentia mais tristeza, chorava como formar de expressar o porquê de ainda ter que suportar tudo aquilo, não havia razão; com o tempo tinha se tornado o reflexo do seu “eu” para as pessoas, pois era assim que se sentia, todos lhe deixaram, então por que não fazer o mesmo?
    Perguntava-se por que tudo aquilo estava acontecendo com ela, logo ela que por excesso de adjetivos que lhe possam atribuir bastaria apenas lhe dizer que era um anjo, uma criatura divina; mas nada dava certo, depois de um tempo tudo que ganhava era o que perdia, e foi aos poucos se matando, não, foi sendo morta aos poucos por todos, o que mais lhe doía era ver que ninguém desviava o olhar do espelho que cultuavam.
    Pegou a bolsa na qual guardava sua única fonte de alimento ultimamente, abriu algumas caixas dos antidepressivos e empurrando por volta de vinte comprimidos garganta abaixo sentiu a paz que tanto sonhara chegar, mas antes que pudesse aos olhos fechar involuntariamente sentiu o corpo sendo sacudido e ouviu gritos de socorro; pensou ela com lágrimas a lhe romperem os olhos:


- Por que tão tarde? Meu grito de socorro já tinha sido dado há anos. 

sábado, 22 de novembro de 2014

O Assassinato da Solidão

Sentindo o corpo suado olhava atentamente no teto o seu reflexo, pelo menos era a sensação que tinha de que era ele aquele que lhe retribuía tal olhar vazio, talvez porque fosse difícil admitir ver tanta tristeza em si próprio. Sentiu uma criatura mover-se ao seu lado na cama.
   Estava inerte aos toques da criatura, pois se via pensando: Gostaria de estar mais presente em mim mesmo, mas esse vazio que sinto toma todo espaço, quando tento tornar à vida sinto-me sufocado, há muita coisa nesse vazio!
  Às vezes, quase sempre, em verdade, tenho a breve impressão de estar me acompanhando de longe sem poder, aparentemente, fazer muita coisa por mim mesmo. Penso que seria mais fácil desistir quando todos já o fizeram, mas qual seria então o propósito da minha vinda? Mas uma vez não encontro respostas, às vezes acho que faço perguntas demais.
    Me olhar daqui e dali é um tanto estranho, pois vejo claramente o que me faz falta e do que não preciso, mas me torno, não, me torna cego, quando estou em mim, a solidão que cultivo sem vontade própria.
    Levantou sem olhar para trás decidido a cometer um assassinato; andou por trinta minutos até chegar ao seu destino, tirou a arma do coração, mas ela saiu em pedaços pela boca, mirou o alvo e atirou: Eu te amo!
    Pronto, no dia seguinte saiu nos jornais “Homem é livre por matar a solidão”.