terça-feira, 25 de novembro de 2014

Talvez, se olhares além de si próprio, não seja tarde demais.



Acordou às seis da manhã com gritos que vinham da cozinha, já tinha se tornado rotina; escutava porque não havia outro jeito, pensava em sair dali, mas para onde, com qual intenção? Se a qualquer lugar que fosse nada conseguia preencher aquele vazio, já estava cheia dele e a única forma de expulsá-lo, só em parte, era aos poucos o transformando em rios que brotavam dos seus olhos. 
     Às vezes ficava sentada por horas em um banco de praça, diria estar sozinha se aquela angústia não lhe acompanhasse sempre; olhava o céu e se sentia parte dele, por um instante esquecia-se de tudo que estava acontecendo, mas não demorava muito para que as lembranças voltassem; sentia falta da mãe que morreu quando ainda era criança, dos amigos que nunca tivera, do amor que jurava ser para sempre, sentia falta de sentir àquele corpo que se via presa como sendo algo seu, não algo que tinha que carregar.
    Cada lembrança trazia consigo um pouquinho de vazio e que depois dava fruto a angústia que lhe enchia deixando-a cada vez mais o eco do que costumava ser. Não sentia mais tristeza, chorava como formar de expressar o porquê de ainda ter que suportar tudo aquilo, não havia razão; com o tempo tinha se tornado o reflexo do seu “eu” para as pessoas, pois era assim que se sentia, todos lhe deixaram, então por que não fazer o mesmo?
    Perguntava-se por que tudo aquilo estava acontecendo com ela, logo ela que por excesso de adjetivos que lhe possam atribuir bastaria apenas lhe dizer que era um anjo, uma criatura divina; mas nada dava certo, depois de um tempo tudo que ganhava era o que perdia, e foi aos poucos se matando, não, foi sendo morta aos poucos por todos, o que mais lhe doía era ver que ninguém desviava o olhar do espelho que cultuavam.
    Pegou a bolsa na qual guardava sua única fonte de alimento ultimamente, abriu algumas caixas dos antidepressivos e empurrando por volta de vinte comprimidos garganta abaixo sentiu a paz que tanto sonhara chegar, mas antes que pudesse aos olhos fechar involuntariamente sentiu o corpo sendo sacudido e ouviu gritos de socorro; pensou ela com lágrimas a lhe romperem os olhos:


- Por que tão tarde? Meu grito de socorro já tinha sido dado há anos. 

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