Acordou
às seis da manhã com gritos que vinham da cozinha, já tinha se tornado rotina;
escutava porque não havia outro jeito, pensava em sair dali, mas para onde, com
qual intenção? Se a qualquer lugar que fosse nada conseguia preencher aquele
vazio, já estava cheia dele e a única forma de expulsá-lo, só em parte, era aos
poucos o transformando em rios que brotavam dos seus olhos.
Às vezes ficava sentada por
horas em um banco de praça, diria estar sozinha se aquela angústia não lhe
acompanhasse sempre; olhava o céu e se sentia parte dele, por um instante
esquecia-se de tudo que estava acontecendo, mas não demorava muito para que as
lembranças voltassem; sentia falta da mãe que morreu quando ainda era criança,
dos amigos que nunca tivera, do amor que jurava ser para sempre, sentia falta
de sentir àquele corpo que se via presa como sendo algo seu, não algo que tinha
que carregar.
Cada lembrança trazia consigo
um pouquinho de vazio e que depois dava fruto a angústia que lhe enchia
deixando-a cada vez mais o eco do que costumava ser. Não sentia mais tristeza,
chorava como formar de expressar o porquê de ainda ter que suportar tudo
aquilo, não havia razão; com o tempo tinha se tornado o reflexo do seu “eu”
para as pessoas, pois era assim que se sentia, todos lhe deixaram, então por
que não fazer o mesmo?
Perguntava-se por que tudo
aquilo estava acontecendo com ela, logo ela que por excesso de adjetivos que
lhe possam atribuir bastaria apenas lhe dizer que era um anjo, uma criatura
divina; mas nada dava certo, depois de um tempo tudo que ganhava era o que
perdia, e foi aos poucos se matando, não, foi sendo morta aos poucos por todos,
o que mais lhe doía era ver que ninguém desviava o olhar do espelho que
cultuavam.
Pegou a bolsa na qual guardava
sua única fonte de alimento ultimamente, abriu algumas caixas dos
antidepressivos e empurrando por volta de vinte comprimidos garganta abaixo
sentiu a paz que tanto sonhara chegar, mas antes que pudesse aos olhos fechar
involuntariamente sentiu o corpo sendo sacudido e ouviu gritos de socorro;
pensou ela com lágrimas a lhe romperem os olhos:
- Por que tão tarde? Meu grito de socorro já tinha sido dado há anos.
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