Sentindo
o corpo suado olhava atentamente no teto o seu reflexo, pelo menos era a
sensação que tinha de que era ele aquele que lhe retribuía tal olhar vazio,
talvez porque fosse difícil admitir ver tanta tristeza em si próprio. Sentiu
uma criatura mover-se ao seu lado na cama.
Estava inerte aos toques da
criatura, pois se via pensando: Gostaria
de estar mais presente em mim mesmo, mas esse vazio que sinto toma todo espaço,
quando tento tornar à vida sinto-me sufocado, há muita coisa nesse vazio!
Às
vezes, quase sempre, em verdade, tenho a breve impressão de estar me
acompanhando de longe sem poder, aparentemente, fazer muita coisa por mim
mesmo. Penso que seria mais fácil desistir quando todos já o fizeram, mas qual
seria então o propósito da minha vinda? Mas uma vez não encontro respostas, às
vezes acho que faço perguntas demais.
Me
olhar daqui e dali é um tanto estranho, pois vejo claramente o que me faz falta
e do que não preciso, mas me torno, não, me torna cego, quando estou em mim, a
solidão que cultivo sem vontade própria.
Levantou sem olhar para trás
decidido a cometer um assassinato; andou por trinta minutos até chegar ao seu
destino, tirou a arma do coração, mas ela saiu em pedaços pela boca, mirou o alvo
e atirou: Eu te amo!
Pronto, no dia seguinte saiu
nos jornais “Homem é livre por matar a solidão”.
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