sábado, 22 de novembro de 2014

O Assassinato da Solidão

Sentindo o corpo suado olhava atentamente no teto o seu reflexo, pelo menos era a sensação que tinha de que era ele aquele que lhe retribuía tal olhar vazio, talvez porque fosse difícil admitir ver tanta tristeza em si próprio. Sentiu uma criatura mover-se ao seu lado na cama.
   Estava inerte aos toques da criatura, pois se via pensando: Gostaria de estar mais presente em mim mesmo, mas esse vazio que sinto toma todo espaço, quando tento tornar à vida sinto-me sufocado, há muita coisa nesse vazio!
  Às vezes, quase sempre, em verdade, tenho a breve impressão de estar me acompanhando de longe sem poder, aparentemente, fazer muita coisa por mim mesmo. Penso que seria mais fácil desistir quando todos já o fizeram, mas qual seria então o propósito da minha vinda? Mas uma vez não encontro respostas, às vezes acho que faço perguntas demais.
    Me olhar daqui e dali é um tanto estranho, pois vejo claramente o que me faz falta e do que não preciso, mas me torno, não, me torna cego, quando estou em mim, a solidão que cultivo sem vontade própria.
    Levantou sem olhar para trás decidido a cometer um assassinato; andou por trinta minutos até chegar ao seu destino, tirou a arma do coração, mas ela saiu em pedaços pela boca, mirou o alvo e atirou: Eu te amo!
    Pronto, no dia seguinte saiu nos jornais “Homem é livre por matar a solidão”.
                                                                                              

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