sábado, 20 de dezembro de 2014

O que fica quando todos vão embora

  

       Sentado, olhando em seus olhos passou a escutar o que o silêncio tinha para lhe dizer, palavras ocas e frias romperam-lhe os olhos, sentia suas entranhas e cada osso sendo triturado pelo vazio que estava lhe consumindo; em um ato de desespero passou as mãos na cabeça e começou a puxar os cabelos tentando de alguma forma arrancar-se de si mesmo e se livrar daquele manto negro que o cobre da cabeça aos pés o sufocando quando todos vão embora.
  Levantou impaciente, ora socando e chutando o ar ora rasgando-se num processo de purificação do “eu”, pois o vazio já estava tão grande que não mais cabia naquela prisão, tinha que se extrair, estava sendo esmagado por dentro; começou a gritar, gritou o mais alto que pôde, alto o suficiente para que sua alma o ouvisse, mas não adiantou, já tinha se tornado o eco do nada que o habitava; ele tentou, mas não poderia ser aquele que iria lhe puxar pela mão para fora daquele abismo, alguém tinha que fazer por ele, mas todos sempre iam embora ao fim da noite, exceto o vazio.
  Exausto, já quase cedendo aos desejos da solidão, ligou a tv e o rádio o mais alto que pôde, mas nenhum barulho conseguia quebrar o silêncio ali instaurado, exceto pelo barulho que uma lembrança boa causava, lembrança de um sorriso bobo dividido com alguém que há muito tempo não mais tivera, de um abraço que há muito não sentia, de uma conversa que há muito não tinha sem ser traído, de um amor que há muito não sentia.

 Vencido pelo cansaço do corpo começou a adormecer e a dor parecia se esvair, só parecia, pois no dia seguinte sendo a primeira coisa que lhe vinha à cabeça como a lembrança de um beijo bom, de um sorriso da pessoa amada, como os últimos olhares trocados na noite passada, ela estaria lá ao seu lado como a única companheira fiel que tivera nos últimos tempos. 

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