Não
tinha mais escolhas, tinha que voltar para casa, gastou todo o dinheiro do
maldito seguro de vida; nesses anos de fuga viveu em lugares em que o silêncio
jamais se apresentava, mas agora não tinha mais jeito, não podia continuar
fugindo; na viagem de volta pegou os caminhos mais longos, mas todos eles o
levavam de volta ao que queria esquecer.
Quando chegou a casa ao abrir o portão foi
recebido pela angústia que lhe deu as boas-vindas, pega a chaves da porta e ao
abri-la ver sentada no sofá, lendo um livro, sua esposa, a imagem mais linda diria
ele, ela lhe deu aquele sorriso, não havia nada mais lindo nesse ou em outro
mundo:
-Boa
noite, amor, senta aqui um pouquinho comigo.
Dirigindo-se ao sofá viu os dois filhos correndo pela sala, ora pulavam na cama ora queriam assistir à
televisão, era uma grande gritaria, mas todo aquele barulho era o que o deixava
feliz.
Ficaria mais feliz que o normal naquele momento, no entanto, se tudo aquilo
não fosse apenas lembranças; sentado no sofá com o olhar fixo parecia estar
escutando alguém falar; olhou ao redor e viu o vazio que enchia aquele lugar,
sentiu-se sufocado; sentiu um vento frio entrar pela janela, era a solidão que
veio lhe dar, também, um abraço de boas-vindas, o abraçou tão forte que lhe
esmagou os pulmões.
A solidão o beijou aos lábios sugando tudo
que de vida ainda tinha dentro dele, em compensação o encheu de um vazio desesperador,
em resposta tudo que ele conseguia ser e, principalmente, fazer era
transformar-se em rios de si mesmo.
Ela tomando conta do corpo dele o ergueu,
tentou leva-lo até a janela, mas seus pés recusavam-se em segui-la, mas ela
era, naquele momento, mais forte que ele, e por um instante sentiu a falta do
chão sob os pés, segundo depois o chão era seu próprio corpo.
Agora será ele também lembrança, caso haja
alguém para lembrá-lo.
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