sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Por que tiveram que ir?

  

Não tinha mais escolhas, tinha que voltar para casa, gastou todo o dinheiro do maldito seguro de vida; nesses anos de fuga viveu em lugares em que o silêncio jamais se apresentava, mas agora não tinha mais jeito, não podia continuar fugindo; na viagem de volta pegou os caminhos mais longos, mas todos eles o levavam de volta ao que queria esquecer.
  Quando chegou a casa ao abrir o portão foi recebido pela angústia que lhe deu as boas-vindas, pega a chaves da porta e ao abri-la ver sentada no sofá, lendo um livro, sua esposa, a imagem mais linda diria ele, ela lhe deu aquele sorriso, não havia nada mais lindo nesse ou em outro mundo:
-Boa noite, amor, senta aqui um pouquinho comigo.
  Dirigindo-se ao sofá viu os dois filhos correndo pela sala, ora pulavam na cama ora queriam assistir à televisão, era uma grande gritaria, mas todo aquele barulho era o que o deixava feliz.
   Ficaria mais feliz que o normal naquele momento, no entanto, se tudo aquilo não fosse apenas lembranças; sentado no sofá com o olhar fixo parecia estar escutando alguém falar; olhou ao redor e viu o vazio que enchia aquele lugar, sentiu-se sufocado; sentiu um vento frio entrar pela janela, era a solidão que veio lhe dar, também, um abraço de boas-vindas, o abraçou tão forte que lhe esmagou os pulmões.
   A solidão o beijou aos lábios sugando tudo que de vida ainda tinha dentro dele, em compensação o encheu de um vazio desesperador, em resposta tudo que ele conseguia ser e, principalmente, fazer era transformar-se em rios de si mesmo.
  Ela tomando conta do corpo dele o ergueu, tentou leva-lo até a janela, mas seus pés recusavam-se em segui-la, mas ela era, naquele momento, mais forte que ele, e por um instante sentiu a falta do chão sob os pés, segundo depois o chão era seu próprio corpo.

  Agora será ele também lembrança, caso haja alguém para lembrá-lo. 

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